Mural do Clima para empresas: entender o clima antes de construir uma estratégia climática

Quando perguntamos a diferentes pessoas o que significa ter uma “estratégia climática”, as respostas podem variar muito.
Para uma pessoa, significa separar corretamente os resíduos do escritório. Para outra, comprar créditos de carbono. Uma terceira pode mencionar a instalação de painéis solares, a publicação de um relatório de sustentabilidade ou a realização de uma oficina de sensibilização.
Todas essas ações podem ter seu valor. Mas, isoladamente, nenhuma delas constitui uma estratégia climática.
Esse tipo de confusão não é apenas semântico. Ele pode levar uma organização a acumular iniciativas ambientais sem compreender quais são seus principais impactos, quais reduções precisa realizar e como integrar o clima às decisões do negócio.
É por isso que muitas organizações começam com uma oficina do Mural do Clima. Antes de perguntar apenas “o que devemos fazer?”, existe outra pergunta importante:
As pessoas responsáveis pelas decisões compartilham uma compreensão mínima do que uma estratégia climática precisa enfrentar?
Ações ambientais não formam automaticamente uma estratégia climática
Separar resíduos é uma prática ambiental importante. Mas gestão de resíduos e estratégia climática não são sinônimos.
Dependendo da atividade da organização, a maior parte das emissões pode estar na compra de matérias-primas, no consumo de energia, no transporte, nas viagens, nos produtos vendidos ou na cadeia de fornecedores.
Uma política de separação de resíduos pode ser positiva e, ainda assim, atuar sobre uma parcela pouco relevante da pegada de carbono da empresa.
O mesmo vale para os créditos de carbono.
Financiar projetos de redução ou remoção de emissões pode contribuir para a ação climática. Mas comprar créditos não substitui a necessidade de conhecer as próprias emissões, identificar as fontes prioritárias e reduzir aquilo que pode ser reduzido dentro das operações e da cadeia de valor.
Também não basta medir.
Um inventário de gases de efeito estufa é uma base de diagnóstico. Ele permite compreender onde estão as emissões e acompanhar sua evolução ao longo do tempo. Mas, sozinho, ainda não define prioridades, responsabilidades, investimentos ou uma trajetória de redução.
Uma estratégia climática empresarial consistente precisa conectar diferentes dimensões:
medir as emissões diretas e indiretas relevantes;
identificar as principais fontes de emissão e dependências;
estabelecer uma trajetória de redução compatível com a ciência;
transformar essa trajetória em decisões, responsabilidades e indicadores;
acompanhar os resultados e revisar as ações;
avaliar riscos físicos e riscos de transição;
e definir como a organização pode contribuir para a ação climática além de sua própria cadeia de valor.
O problema, portanto, não é que as organizações não façam nada. Muitas já realizam diversas iniciativas.
O problema é acreditar que uma coleção de ações desconectadas equivale a uma estratégia.

Redução, compensação e contribuição climática não são equivalentes
O referencial da Net Zero Initiative, desenvolvido pela Carbone 4, ajuda a organizar a ação climática das organizações em três pilares complementares:
reduzir suas próprias emissões diretas e indiretas;
contribuir para a redução das emissões de outros atores;
preservar e desenvolver sumidouros de carbono.

A principal contribuição desse modelo é tornar explícito que os resultados desses três pilares não são intercambiáveis.
Uma redução realizada dentro da cadeia de valor da empresa não é equivalente a uma emissão evitada em um projeto externo. Da mesma forma, financiar um projeto de remoção de carbono não faz desaparecer automaticamente as emissões geradas pelas operações da organização.
Cada frente responde a uma pergunta diferente e precisa ser medida e comunicada separadamente.
Essa distinção também está no centro do Contribution Framework desenvolvido pela Sweep. Em vez de tratar os créditos de carbono como um mecanismo que “apaga” as emissões da organização, o framework propõe utilizá-los como uma forma de financiar a ação climática para além de sua cadeia de valor.
Na prática, a empresa define um orçamento, por exemplo a partir de um preço interno de carbono, em vez de comprar créditos proporcionais ao volume de suas emissões.
A mudança não é apenas vocabular.
Na lógica tradicional da compensação, a empresa tende a apresentar um saldo: suas emissões seriam neutralizadas pelos créditos adquiridos.
Na lógica da contribuição, os resultados permanecem separados. De um lado, estão as emissões da empresa e sua trajetória de redução. Do outro, o financiamento destinado a projetos climáticos externos.
Isso permite reconhecer o valor da contribuição sem criar a impressão de que uma tonelada emitida deixou de existir porque um crédito foi comprado.

Uma estratégia climática consistente não pergunta apenas quantos créditos seriam necessários para declarar um saldo zero. Ela procura definir:
quanto e com que velocidade a organização precisa reduzir suas próprias emissões;
como transformar essa trajetória em decisões e investimentos;
como tratar as emissões que ainda não conseguiu eliminar;
e como contribuir adicionalmente para a transição climática fora de sua cadeia de valor.
Informação não produz automaticamente compreensão
Nunca tivemos acesso a tantos relatórios, gráficos, notícias e indicadores climáticos.
Mesmo assim, informação fragmentada não produz automaticamente uma visão sistêmica.
Uma pessoa pode saber que o desmatamento libera carbono, que as ondas de calor estão se intensificando e que o nível do mar está subindo, sem conseguir reconstruir as relações entre essas transformações.
Também pode conhecer conceitos como escopos 1, 2 e 3, neutralidade, adaptação e risco de transição sem compreender como eles se conectam às decisões concretas de sua organização.
Esse é um dos principais desafios da educação climática: organizar o conhecimento sem apagar a complexidade.
Não se trata de transformar todos os profissionais em climatologistas ou especialistas em contabilidade de carbono. Trata-se de construir uma base comum para que as decisões não sejam tomadas a partir de interpretações incompatíveis do problema.
Isso exige compreender algumas relações essenciais:
as emissões anuais aumentam uma concentração de gases que se acumula na atmosfera;
mitigação busca limitar o aquecimento, enquanto adaptação busca reduzir vulnerabilidades diante de seus impactos;
a pegada de carbono mede a contribuição da organização para as emissões, enquanto a análise de riscos procura entender como a mudança do clima pode afetar suas atividades;
os riscos não dependem apenas do fenômeno físico, mas também da exposição e da vulnerabilidade das pessoas, dos territórios e das operações;
uma solução climática pode reduzir determinado impacto e, ao mesmo tempo, criar novos efeitos sociais ou ambientais.
O próprio IPCC relaciona aprendizagem social, desenvolvimento de capacidades e construção de objetivos compartilhados ao desenvolvimento resiliente ao clima.
No Brasil, o Plano Clima 2024–2035 também inclui educação, capacitação e conscientização entre as estratégias transversais necessárias para fortalecer a ação climática.
Sensibilizar, portanto, não é uma etapa decorativa. É uma condição para melhorar a qualidade das decisões.
Como funciona o Mural do Clima para empresas
O Mural do Clima é uma metodologia colaborativa de sensibilização climática fundamentada nos relatórios do IPCC.
Durante a oficina, os participantes trabalham em grupo para reconstruir as relações de causa e consequência da mudança do clima. Em vez de receberem uma explicação pronta, precisam formular hipóteses, organizar as informações, argumentar e rever sua interpretação.
Em uma aplicação do Mural do Clima para empresas, o objetivo não é apenas transmitir conhecimentos científicos. A facilitação ajuda o grupo a conectar o sistema climático às atividades, às decisões e às vulnerabilidades da organização.
Uma palestra tradicional organiza a relação entre quem apresenta o conhecimento e quem escuta. Em uma metodologia colaborativa, as divergências deixam de permanecer escondidas.
É justamente nesse processo que surgem algumas das melhores perguntas.

Durante minha experiência como facilitador, formador e antigo coordenador nacional do Mural do Clima no Brasil, percebi que o momento mais importante de uma oficina nem sempre acontece quando alguém descobre um dado novo.
Frequentemente, ele aparece quando uma pessoa consegue conectar conhecimentos que já possuía separadamente.
A equipe financeira percebe que um impacto físico pode se transformar em uma perda econômica. A área de compras entende que boa parte das emissões e vulnerabilidades pode estar na cadeia de fornecedores. Recursos humanos identificam relações entre clima, saúde e condições de trabalho. Operações reconhecem que eficiência energética e resiliência climática não são necessariamente a mesma coisa.
O Mural do Clima é potente porque ajuda a tornar essas relações visíveis.
Mas as cartas, sozinhas, não resolvem nada.
A qualidade da experiência depende da facilitação, das perguntas colocadas e da capacidade de relacionar a ciência ao contexto da organização.
Sensibilização climática não pode ser entretenimento corporativo
Um workshop de sustentabilidade pode reunir pessoas, gerar boas fotos e receber avaliações positivas. Nada disso garante que produzirá mudanças.
O risco é transformar a sensibilização climática em um evento isolado: interessante durante algumas horas, mas desconectado das decisões tomadas no dia seguinte.
Para evitar isso, é necessário saber por que a atividade está sendo realizada.
Quem participará? Quais decisões essas pessoas influenciam? Que conceitos já dominam? Quais dúvidas ou resistências existem? O que deverá acontecer depois?
Uma oficina para a liderança não deveria necessariamente ter o mesmo enfoque de uma atividade para equipes operacionais.
Um grupo que iniciará um inventário de gases de efeito estufa não possui as mesmas necessidades de outro que está avaliando riscos climáticos, definindo metas de redução ou construindo um plano de transição.
A metodologia pode ser a mesma, mas a facilitação e o debriefing precisam dialogar com o contexto.
Depois da sensibilização, a organização deve ser capaz de identificar seu próximo passo:
iniciar ou aprofundar seu inventário de emissões;
identificar as fontes prioritárias de redução;
analisar riscos e vulnerabilidades climáticas;
construir cenários e trajetórias de transição;
desenvolver competências internas;
ou organizar responsabilidades, indicadores e dados climáticos.
Sem essa continuidade, a oficina corre o risco de produzir consciência sem capacidade de ação.
Do Mural do Clima à estratégia climática
Uma organização não precisa esperar que todos se tornem especialistas para começar a agir.
Mas precisa garantir que as pessoas responsáveis pelas decisões não estejam agindo a partir de interpretações incompatíveis do problema.
Uma compreensão compartilhada ajuda a distinguir ações estruturais de medidas marginais, interpretar dados com mais criticidade e distribuir responsabilidades entre diferentes áreas.
Também permite reconhecer que a estratégia climática não pertence apenas à equipe de sustentabilidade. Ela se materializa nas escolhas de investimentos, compras, produtos, logística, operações, finanças e gestão de pessoas.
Na YBY Dinâmicas, realizamos oficinas do Mural do Clima para empresas, instituições públicas, universidades e organizações da sociedade civil.

Cada experiência é estruturada de acordo com o público, o contexto e os objetivos da organização. A sensibilização pode ser seguida por outras etapas da jornada climática:
construção de cenários e trajetórias com a metodologia 2tonnes;
cálculo da pegada de carbono;
elaboração de inventários de gases de efeito estufa;
definição de planos de redução;
e organização dos dados climáticos por meio da plataforma Sweep.
A lógica não é realizar uma oficina apenas para afirmar que a equipe foi sensibilizada.
É construir uma compreensão que permita projetar, medir e gerir melhor.
Porque estratégias melhores não começam apenas com respostas mais sofisticadas.
Elas começam com perguntas mais claras.
Sua organização precisa construir uma compreensão climática comum antes de avançar para a medição ou a estratégia? Conheça as oficinas do Mural do Clima facilitadas pela YBY Dinâmicas.
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